Em um mundo em que 70% da superfície é coberta por água, apenas 0,5% desse recurso é própria para consumo humano e agricultura. Diante desse cenário, torna-se urgente entender o recurso escasso e insubstituível que a água representa, bem como investir em estratégias que garantam sua disponibilidade futura.
Desafios e Ameaças
O Brasil enfrenta uma série de desafios relacionados ao acesso e à qualidade da água. Atualmente, 16,9% dos brasileiros não têm acesso à água potável, enquanto 44,8% da população carece de coleta de esgoto adequada. Esse panorama revela profundas desigualdades regionais e sociais.
Além disso, o aumento de 30% da demanda por água até 2030 coloca em xeque a capacidade de abastecimento das bacias hidrográficas. Nas 100 maiores cidades do país, o índice médio de perdas atinge 45,43%, quase o dobro do limite considerado aceitável (25%). Essas perdas elevam custos operacionais e reduzem a eficiência dos sistemas.
O Valor Econômico da Água
Reconhecer a água como um ativo econômico é essencial para embasar políticas de uso sustentável. A Resolução ANA nº 233/2024 estabelece preços unitários reajustados pelo IPCA em 4,76% para a maioria das bacias federais. Essa medida visa internalizar o custo ambiental e operacional no valor cobrado pelo uso.
No mercado de água engarrafada, o Brasil figura como o 5º maior consumidor mundial, ultrapassando 21 bilhões de litros por ano. A previsão é que o consumo per capita alcance 66 litros/ano em 2028. Paralelamente, o investimento médio em saneamento foi de R$ 127 por habitante em 2023, distante dos R$ 223,82 recomendados para garantir cobertura e qualidade adequadas.
Iniciativas e Exemplos de Sucesso
Diversas soluções já demonstraram impacto positivo na melhoria da gestão hídrica no país e no mundo:
- Petrópolis (RJ): 70% do esgoto tratado com uso de biodigestores, gerando biogás para escolas e creches.
- Aeroportos brasileiros: economia de 40 mil m³ de água por mês via reúso e monitoramento, abastecendo cerca de 4.000 residências.
- São Paulo (SP): redução de tarifa em 0,6% após desestatização, enquanto o restante do país registrou média de 6,8% de aumento em 2024.
Soluções Hídricas Sustentáveis
As tecnologias de reúso e captação e as Soluções Baseadas na Natureza (SbN) são pilares para a resiliência hídrica. A captação de água de chuva com filtros industriais pode tornar o recurso potável em áreas vulneráveis, enquanto sistemas de monitoramento em tempo real detectam vazamentos e controlam o consumo.
Globalmente, as SbN receberam US$ 49 bilhões em 2023. Essas iniciativas incluem conservação de florestas e recuperação de mananciais, promovendo maior qualidade da água e segurança hídrica a longo prazo.
Investimentos e Financiamento
O mercado de dívida sustentável e o financiamento público-privado têm crescido para suprir a demanda por infraestrutura hídrica sustentável. No entanto, barreiras persistem:
- Falta de modelos de receita de longo prazo para SbN.
- Baixa integração institucional entre órgãos federais, estaduais e municipais.
- Carência de instrumentos financeiros e legais robustos.
Para alcançar a universalização dos serviços, o Brasil precisaria aumentar consideravelmente seus investimentos. Atualmente, apenas sete capitais apresentam cobertura de abastecimento superior a 99%.
Benefícios Socioeconômicos
O acesso a água potável e saneamento adequado traz ganhos diretos em saúde, turismo, valorização imobiliária e educação. Estima-se que a falta de recursos hídricos possa gerar perdas multibilionárias globais devido a impactos em saúde pública e produtividade.
Investir em infraestrutura natural e recuperação de mananciais reduz custos operacionais, protege ecossistemas e fortalece a segurança alimentar por meio de uma agricultura mais resiliente ao clima.
Políticas Públicas e Educação Ambiental
A sensibilização da sociedade é tão crucial quanto os investimentos em infraestrutura. Campanhas de educação ambiental em escolas e comunidades promovem mudanças de comportamento, reduzindo desperdícios e valorizando cada gota.
Embora o novo marco legal do saneamento tenha completado cinco anos, seu avanço é considerado insuficiente. É necessário acelerar a implementação, simplificar processos de licenciamento e incentivar modelos de gestão inovadores.
Perspectivas e Recomendações
Para consolidar a segurança hídrica sustentável no Brasil, propomos:
- Combinar obras tradicionais com SbN e tecnologias inteligentes.
- Fortalecer comitês de bacia hidrográfica com participação social ativa.
- Desenvolver instrumentos financeiros inovadores, como títulos verdes para projetos hídricos.
- Ampliar mecanismos de governança para garantir previsibilidade e retorno aos investidores.
Conclusão
A água é um bem comum de valor incalculável, cuja escassez já afeta saúde, economia e meio ambiente. Investir em soluções hídricas sustentáveis não é apenas um imperativo ambiental, mas também uma oportunidade de gerar emprego, inovação e qualidade de vida.
Ao combinar políticas públicas eficazes, engajamento comunitário e capital privado, o Brasil pode trilhar o caminho rumo à segurança hídrica de longo prazo, assegurando que as futuras gerações tenham acesso a esse recurso vital.